Para tudo se tem uma primeira vez, e com assaltos não seria diferente, não é mesmo?
Ser assaltado é igual a ser corno: Se você ainda não foi, certamente um dia será. Não há como escapar disso, é algo impossível, ao não ser que você não saia de casa e fique trancado jogando video game o dia inteiro, mas mesmo assim há uma grande chance de algum marginalzinho invadir sua casa.
Lá na cidade do litoral onde eu morava era um inferno, tava cheio de ladrão a ponto de uma pessoa não acreditar na outra se dissesse que nunca fora assaltada.
Eu tinha por volta dos meus 13 anos, e ia de bicicleta para a escola todas as manhãs. A escola nem era tão longe, mas se fosse a pé seria necessário acordar uma hora antes, e eu não tinha grana para ir de busão.
Um vizinho que morava em frente a minha casa num cortiço era um grande amigo meu na época, e a principio íamos a pé para a escola. Eu até tinha uma bicicleta, mas digamos que ela já havia dado o que tinha que dar, eu tinha ela desde os 9 anos e ela parecia mais um triciclo quando subia nela, sem contar no ferrugem e no péssimo estado em que ela se encontrava. Posso até dizer que se ela fosse um carro, seria o do Fred Flinstone, de tão rudimentar que ela estava. Até que eu tive a idéia de comprar uma outra para poder ir à escola, então conversei com o meu avô e ele só me compraria outra caso eu ajudasse numa parte do dinheiro. Aquilo era um grande problema para mim, pois onde eu arranjaria uma certa quantia de grana para comprar uma bicicleta melhor?
Então eu tive a brilhante idéia montando a seguinte equação que nem mesmo Einstein seria capaz de pensar:
CIDADE DO LITORAL = PRAIA = GENTE PRA CARAMBA = CONSUMO DESENFREADO = LATINHAS DE CERVEJA E LATINHAS DE REFRIGERANTE = GRANA, BUFUNFA, CASH, MONEY, PIXULÉ, ETC.
Caso não entendeu eu decidi ir catar latinha na praia para poder levantar uma grana. Mesmo estando já nas férias de julho, o movimento na praia pode ser considerado "bom". Logo no dia seguinte lá fui eu, de camisa regata, short, tênis de esporte e boné. Foi nesse dia que eu descobri que o povo é porco até demais, juntei uma quantidade enorme de latinhas depois de uns 5 dias. Mas daí veio a frustração: Cheguei lá onde se compra latinhas e quem me atendeu foi um senhor meio seboso, tinha umas feridas dentro da orelha, tinha um bafo de cachaça que quase me fez usar uma máscara de oxigênio tamanho era o odor. Ele perguntou:
- O que é que você quer? Qual pergunta mais cretina ele poderia fazer?
Depois ele foi lá e pesou aquela enorme quantidade de latinhas e aquilo só dava uns 10 reais. Fiquei completamente puto e frustrado. No mesmo dia voltei as andanças pela praia. Passaram-se quase 23 dias e já tinha uns 75 na mão. Mas ainda não era suficiente. Daí eu tive outra idéia...Vendi a minha bicicleta de Fred Flinstone e uma prancha de surf que eu tinha lá em casa. Aquilo já dava uns 100 e pouco.
Depois de ver meu sacrifício meu vô percebeu que já tava na hora de liberar o restante da grana.
Fomos na bicicletaria do Seu Joaquim, que por sinal ficava muito longe da minha casa.
O Seu Joaquim era um senhor português muito gente fina, ele era amigo do meu vô há um tempão já. Chegamos lá e eu fiquei perdido, não sabia qual levar, até que o Seu Joaquim com o seu sotaque de português me disse:
- Eshperes aí menino, possuo uma bicicleta que guardashtesh pra ti.
Então ele entrou por uma porta e saiu de lá com uma bicicleta muito foda, foi amor à primeira vista praticamente. Levei a bicicleta e fiquei muito feliz.
Era um sábado, e as aulas já começavam segunda então logo tratei de combinar com meu vizinho e melhor amigo, o Marcos, de irmos de bicicleta para a escola, já tinhamos combinado tudo.
Então logo chegou segunda-feira. Tudo foi bem. Lembro que a maioria dos meus colegas pagaram um pau filho duma puta para a minha bicicleta. Naquele dia a aula pouco importava para mim...A prof. Silvia (lembro até hoje dela, ela era mulata e batia no braço dizendo: "- Meu pai é alemão! Tem o olho azul! Meu sangue é azul também!") parecia estar falando hebraico. Lembro que de onde eu sentava podia-se ver perfeitamente onde as bicicletas ficavam presas.
Passou segunda...Terça...Quarta...Quinta...E então chegou sexta-feira. Não sei porquê, mas acordei com a sensação de que eu iria me foder legal. Fui até meu portão e meu amigo estava me esperando, fomos tranquilamente.
Durante a aula, eu só ficava olhando para o bicicletário, quando derepente vejo um sujeito meio que subindo no muro e dando um visu em todas as bicicletas. Não sei porquê, mas eu tive a impressão de apenas eu ter visto aquela cena. Ele apoiava os braços no muro e falava com alguém lá embaixo. Fiquei meio cabrero, e continuei observando até mesmo na aula de Ed. Física.
A manhã passou rapidamente e eu e o Marcão fomos lá tirar as correntes e os cadeados de nossas bicicletas para irmos embora. Lembro que o sol estava de rachar, minha pele branca de Bruxa Elvira já estava ardendo como brasa. Pegamos nossas bikes e fomos pedalando.
Até hoje eu lembro que nós eramos muito burros, pois eu e ele íamos numa velocidade de 800 metros por hora. Relmente uma idiotice gigante andar assim por aquelas ruas vázias, mesmo o relógio marcando 11:30 da manhã. Eu e ele lá conversando, tranquilão, quando derepente ele olha pra trás e fica branco (O que era meio ímpossível devido à aparência de Cumpade Washington dele), eu pergunto o que houve e antes mesmo que ele responda eu viro minha linda cabeçona para ver do que se tratava. Nós dois, ao mesmo tempo fizemos a brilhante equação que todos os moradores de Praia Grande faziam para perceber um assaltante:
SUJEITO MAGRICELA EM BICICLETA VÉIA + AMIGO MAIS MAGRICELA AINDA NA GARUPA + ROUPAS DA CYCLONE + ÓCULOS DE SOL COMPRADO NO CAMELÔ + CHINELINHO DA STHILL = CORRE QUE É BANDIDO MERMÃO !!!!
Nós começamos a pedalar incansavelmente até a nossa rua. A nossa vantagem era óbvia, éramos menores e mais leves e estavamos cada um em uma bike diferente e as nossas eram mais rápidas. Eles vinham em 2 juntos em uma bicicleta velha, provavelmente a mesma dos tempos em que elas eram daquelas no qual a roda da frente era gigantesca e a de trás minuscula.
Nós conseguimos despistá-los por aquelas ruas vázias. Me sentia num filme policial, só que nesse caso os mocinhos tentando escapar dos chefões. Eu já estava me achando muito esperto, esperto até demais. Quando nos damos conta já estavamos na rua que dá acesso a esquina da minha casa. Na metade da rua avistamos os indivíduos que roubam coisas alheias vindo em nossa direção na maior velocidade, digna de um Alexandre Barros da vida. Nós não tinhamos para onde ir, na hora só pensei: "Fudeu, serei assaltado..." Até que nós fizemos algo que pareceu "suicídio". A tal esquina que dava acesso a esquina da nossa rua estava há uns 550 metros de nós e uns 300 deles. Usando as leis da Física pudemos inacreditavelmente perceber que se triplicassemos nossa velocidade conseguiriamos dobrar a esquina antes deles. Óbvio que aquilo foi uma idéia digna de Chapolin Colorado, mas na hora nem pensamos nisso, apenas pedalamos. De fato nós conseguimos virar a esquina primeiro que eles, mas com um "pequeno" detalhe: Nós viramos a rua com eles a uns 7 metros na nossa cola hehe. A rua que viramos era relativamente curta, e logo já veio uma outra curva à direita que já saia a uns 200 metros da minha casa e da dele. Nós viramos e de lá já avistei minha casa, lembro que eu mentalizava a música We Are The Champions, quando derepente numa "arrancada espetacular" digna de uma narração do Galvão Bueno os ladrõezinhos nos alcansam, raspando o pneu da bicicleta fedorenta deles na minha. Quando chegaram mais perto o cara que guiava a bike deles me deu um tapão na nuca que eu desequilibrei e caí no chão, me ralando todo. O que estava na garupa desceu, pegou minha bicicleta e ainda disse "Valeu brow". Senti uma raiva filha da puta naquele momento, fiquei extremamente emputecido. Lembro que eles dobraram a próxima esquina com muita velocidade. Mas eu e o Marcos não desistimos, saímos correndo e quem nos ajudou foi o Alemão, um pedreiro super gente boa que trabalhava numas casas lá da rua. Na mesma hora ele nos colocou à bordo de seu incrivel Fiat 1900 e lá vai bolinha azul celeste metálico. Ele acelerou e lá fomos nós 3 caçar os meliantes. Numa ronda pelas ruas dignas da ROTA, decidimos ir até o outro lado da pista (O outro lado da pista era o setor 3 na cidade, e 99,9999% dos bandidos eram de lá), e seguimos o caminho. Viramos na esquina de uma padaria chamada NS do Amparo e avistamos há uns 150 metros os manés que levaram embora minha bicicleta. É claro que com a velocidade de um carro não tem pra ninguém. Logo nos alcansamos eles, e o Alemão simplismente deu um cavalo-de-pau batendo com tudo na roda da minha bicicleta que estava sob o domínio dos vagabundos. Mermão, foi lindo, além de milagrosamente a roda da minha bike não ter entortado, o mané voou, literalmente! Ele subiu lá no alto e caiu com a cabeça na guia, com tudo! E o outro bandido conseguiu vazar do local. Não sei como ele não morreu, o Alemão ainda disse depois que ele poderia ter pego um processo violento caso matasse o moleque ou até mesmo por agressão física. Ele chamou a polícia e o vagabundo foi preso e minha bicicleta recuperada. Depois de 8 anos eu a venderia por 50 reais :)
FIM
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário